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Mapa dos negócios de impacto 2019

Atualizado: 17 de nov.


Imagem: Banco de imagens do WIx

        No dia 19 de março de 2019 foi lançado o “2º Mapa de negócios de impacto”. O mapa foi feito pela “Pipe Social”, uma organização de mapeamento, apoio, fomento e estudo de negócios de impacto que atua como uma vitrine para os negócios que buscam apoio, investimento, cursos etc. O 1º mapa foi feito em 2017 com pouco mais de 300 negócios. Dessa vez o número saltou para 1.002 negócios que se cadastraram e responderam às perguntas da pesquisa. O estudo contou com o apoio de mais de 55 instituições que ajudaram na chamada para esses negócios responderem a pesquisa do mapa, e com o patrocínio de 3 outras instituições: Aliança, uma instituição que ajuda a levantar fundos e investimentos para negócios de impacto, ApexBrasil a agência Brasileira de promoção a exportações e investimentos e finalmente o Banco Itaú.

               Este último, um banco sabidamente irresponsável socialmente pelas suas práticas de mercado, que fomenta pouquíssimo o setor de negócios de impacto e que não tem planos próximos de aumentar sua atuação nesse setor, algo confessado pela representante do banco, (aqui me desculpo, não tive o cuidado de anotar o nome) que estava presente no evento de lançamento do mapa, quando comentava o número vexaminoso que mostra o quanto o sistema bancário brasileiro está distante de apoiar os negócios que são apontados como os negócios do futuro, exatamente pelos seus impactos sociais, econômicos e ambientais. O número em questão são os 3% dos negócios que acessaram crédito bancário para financiar seus projetos. Ou seja, de 1.002 empresas ouvidas, somente 30 tiveram acesso ao crédito bancário, que em outras partes do mundo, como em países desenvolvidos, são os principais financiadores desse tipo de negócio. Enquanto aqui, o sistema bancário, o setor mais rico dentre as empresas Brasileiras, consegue perder para o sistema de “vaquinha online”, os recentes “crowdfundings” que respondem por 8% dos valores investidos nesses projetos. Eu trabalhei 7 anos no sistema bancário e sei que os bancos realmente não ligam para isso, a culpa não é da representante, a culpa é da cultura bancária brasileira. Ainda bem que o mínimo do mínimo eles fazem para inglês ver, afinal essas coisas contam ponto com investidores internacionais. Mas ainda bem que nesse mínimo, trabalhos ótimos como o da Pipe Social são apoiados e proporciona a entrega de informações tão importantes, que em um futuro não tão distante, serão capazes de convencer o capital a apoiar esse movimento. Importante ressaltar que a presença do banco dentre os patrocinadores, não desmerece em nada o trabalho realizado pela Pipe Social, algo que eu descreveria como criterioso e sério. E há de ressaltar que apesar da cultura predatória dos bancos, há pessoas incríveis dentro dessas instituições, pessoas que defendem o social e fazem o contraponto.


MÉTODOS E CRITÉRIOS:

               Nessa pesquisa, os empreendedores de impacto responderam a 45 questões que vão desde informações socioeconômicas, até os tipos de tecnologia que têm empregado em seus negócios afim de conseguir melhores resultados; foram considerados apenas negócios cuja as operações sejam financeiramente sustentáveis, dependendo de menos de 50% de subsídios para funcionar. Logo, instituições de financiamento essencialmente filantrópicas como a AACD, não entraram no levantamento; a definição de negócios de impacto levado em consideração nessa pesquisa, é: “Empreendimentos que têm a missão explicita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que produzem resultado financeiro positivo de forma sustentável”.

               As áreas de impacto consideradas, são baseadas nos 17 ODS - Objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Esses 17 ODS foram consolidados em 6 verticais: Cidadania, Cidades, Educação, Serviços Financeiros, Saúde e Tecnologias Verdes.

Como um dos maiores entusiastas do que eu chamo de "empreendedorismo responsável", não poderia deixar de ler e compartilhar esse relatório e as minhas impressões sobre o mercado. Afinal, acho que a definição "Negócios de impacto" é basicamente uma definição mais sonora e impactante daquilo que eu defendo como "Negócios Responsáveis". Chega de blá-blá-blá e vamos aos dados!      


O que os dados contam sobre negócios de impacto:         

Os negócios de impacto mostram uma tendência crescente de tecnologias verdes que hoje está presente dentre as atividades de 46% dos negócios, ante a 23% mostrados no mapa de 2017; e impactos voltados a cidadania em 43% dos negócios, ante 12% do levantamento anterior, Estes lideram o ranking isolados. Em seguida vem a educação com 36% dos negócios, muito estável em relação ao levantamento de 2017 quando estava em 38% dos negócios, enquanto os demais impactos são gerados por no máximo 26% dos negócios pesquisados. Importante ressaltar, que segundo o relatório, muitos negócios geram impacto em mais de uma área e a pesquisa permitiu o preenchimento em mais de uma opção.

Um dado que chama atenção, é que 62% dos negócios de impacto estão concentrados no Sudeste, sendo mais de 30% em São Paulo. Isso acontece por alguns motivos. O primeiro deles é que onde há maior concentração de renda, há maior aderência ao mercado de impacto, seja por doações ou pelo consumo de serviços. Outro ponto que eu pessoalmente consigo enxergar, é que o Sudeste é uma vitrine econômica do Brasil, tudo que acontece em São Paulo, por exemplo, ganha uma visibilidade muito maior do que quando acontece em regiões menores. A presença de empresas internacionais no Sudeste, também estimula a adesão de boas práticas já consolidadas em outros países.

Por um lado, se o Sudeste é o principal centro atendido, o centro-oeste (5%) e o Norte (7%) possuem uma grande carência, principalmente em questões sustentáveis, já que são polos agropecuários e de mineração respectivamente, logo duas das atividades econômicas mais nocivas ao meio ambiente e ao planeta. Esses números apresentaram pouca variação de 2017 para 2019.


A formalização das empresas é um aspecto bastante positivo, 76% (70% em 2017) dos negócios de impacto estão formalizados, um número muito superior ao empreendedorismo geral no país. Porém os negócios de impactos socioambientais levantados, negócios mais autônomos, não são direcionados a atender a base da pirâmide no Brasil. 82% dizem atender e se dedicar a base da pirâmide, mas somente 8% dos negócios são de fato direcionados para a base. Isso é um fator interessante, já que a base da pirâmide, as pessoas em maior vulnerabilidade social, só têm força de trabalho para oferecer, e para essas empresas serem sustentáveis financeiramente sem depender de doações, precisam começar a investir nessa ponte da empregabilidade, dando emprego e oportunidade para a base da pirâmide, mesmo que seus serviços sejam direcionados ao topo da pirâmide, mas isso ainda está longe de acontecer e de ser ideal. Por conta da falta de incentivo legislativo e bancário, essas empresas possuem dificuldades em investir e gerar empregos, realidade refletida no dado do mapa que revela, que 70% dos negócios têm de 1 a 5 pessoas na equipe, mas 16% desses 70 são uma “EUquipe”, ou seja, negócios de uma pessoa só. E 77% dos negócios, afirmaram que usam “freelancers” como equipe. Um número que precisa ser olhado com atenção para esse mercado não se tornar proporcionalmente tão informal quanto o “empreendedorismo” tradicional.

Um número que é completamente positivo e me anima muito, é que 46% dos negócios estão em fase inicial, isso mostra uma tendência muito forte de crescimento do setor. Outros 21% já estão em funcionamento pleno que os permite “organizar a casa”, para em seguida escalar suas operações. Ou seja, com uma matemática bruta e simplista já dá para perceber que o mercado aponta nessa direção. Com 26% de negócios que já estão no que podemos chamar de “maioridade corporativa”, 5 anos de vida. Essa taxa é um sucesso se pensarmos o quão novo esse mercado é, e o quão menor são os investimentos destinados ao setor de impacto, se comparado a outras áreas, como startups de tecnologia que recebem aportem gigantes e têm uma taxa de sucesso comparável a negócios tradicionais, familiares e de investimento pessoal.

E como esses negócios se mantém? A maioria dos modelos de negócios estão apoiados em qual tipo de “monetização”?

               Mesmo com o crescimento do setor pela adoção de tecnologias, o que ainda domina o mercado e é utilizada em 45% dos negócios é a venda direta e única. Ou seja, uma empresa que produz móveis de palets, onde o cliente compra e pronto; Em seguida, vem a Venda-direta recorrente. Nesse modelo, podemos citar por exemplo empresas que vendem geleias orgânicas em sua região. As pessoas compram recorrentemente, quando acaba um pote, compram outro e assim sucessivamente. Essa forma de monetização está presente em 43% dos negócios; Ante 31% dos negócios que monetizam também em forma de assinaturas, como empresas de manutenção de painéis solares que mantém contratos por assinatura com seus clientes, para que de tempos em tempos programados, uma equipe comparece ao local da instalação para realizar limpeza, ajustes, substituição de peças etc.


Aqui, como estrategista comercial, me sinto à vontade para falar que é provável que a venda única ainda seja líder pelos próximos anos, mas estrategicamente, as empresas devem apostar na venda por assinatura, que dá mais autonomia, previsibilidade financeira e cria um colchão de segurança no negócio, algo difícil de garantir nas vendas recorrentes e impossível de fazer na venda única.

Esse tipo de leitura, um leigo tem dificuldade para fazer, o ideal é que esses negócios passem por aceleração, e isso os empreendedores até querem. 30% já foram acelerados, 9% foram mais de uma vez, mas enquanto isso 50% dos negócios quiseram e não conseguiram.

Para finalizar, vale ressaltar que a vertical de tecnologias verdes, apresenta um potencial de crescimento gigantesco, já que a maioria dos projetos, 22% estão em faze de prototipação e piloto, com outros 21% prontos, se organizando para crescer. É um mercado ainda novo, nada consolidado e que tem recebido atenção da sociedade e da mídia, falta agora os investidores fazerem sua parte, pois micro estações de geração de energia e tratamento de efluentes, é um futuro muito próximo, vai movimentar bilhões em pouquíssimo tempo. Mas com os primeiros players despontando, o mercado se movimenta.


Infelizmente, assim como no mercado tradicional, o perfil do empreendedor de impacto é homem, branco, jovem adulto (53% entre 30 e 44 anos) e empreende no sudeste do país.

               Parece um mero detalhe, mas mostra que a informação, a formação e o investimento não está chegando onde mais precisa, não está chegando nas periferias, não está chegando para a maioria da população do país. Esse dado revela um cenário dramático que precisa ser revertido. A forma mais eficaz disso acontecer é através dos meios de comunicação de massa, serem mais responsáveis com o conteúdo que publicam, serem mais profundos em suas matérias sobre negócios de impacto, ao invés de esconderem nas manhãs de sábado, como fazem com o maravilhoso “Como Será?”, brilhantemente conduzido pela Sandra Annenberg e uma equipe muito sensível as demandas socioambientais, mas que só vai ao ar no sábado às 07:00 da manhã, uma faixa de horário conhecida pela baixa audiência, enquanto em horários mais efetivos, programas policialescos rasos tomam conta da programação.


Para encerrar, quero parabenizar Mariana Fonseca e Lívia Hollerbach pelo trabalho realizado na Pipe Social, dando vitrine aos negócios de impacto e fortalecendo uma cultura que merece toda a nossa atenção. O documento que vocês produziram, é na minha opinião, um dos relatórios mais importantes sobre negócios no Brasil, já lançado nos últimos tempos. É importante que o trabalho da pipe social continue crescendo e se aprofundando na busca por todas as informações pertinentes ao setor, somente esse movimento será capaz de gerar os argumentos que precisamos para pressionar o poder público e as forças econômicas mais influentes.


O relatório completo com mais de 200 páginas, pode ser baixado no link abaixo:


Mapa de 2019: https://pipe.social/mapa2019

Mapa de 2017: https://pipe.social/mapa2017